Exposição “Caretas Contemporâneas” estreia em Cachoeira. Leia a entrevista com Gugui Martinez

28 fevereiro de 2014 | Toni Caldas

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Caretas GUgui

Segue em cartaz até 10 de março, na Galeria Identidade Brasil, em Cachoeira, a exposição “Caretas Contemporâneas”, do artista visual Gugui Martinez. O trabalho inédito reúne expressões da cultura popular do Recôncavo sob um olhar intimista que tem realizado projetos premiados também no Cinema Nacional.

Confira a entrevista completa com o artista cedida ao Portal A Ponte, um bate-papo em trânsito entre a Galeria Identidade Brasil e as ruínas das ruas de Cachoeira, um estreitamento com a própria linguagem de ruptura e contraste que ele propõe.

A PONTE: Você atende pelo nome artístico de Gugui Martinez, mas… É isso mesmo?

GUGUI MARTINEZ: Não. Na verdade meu nome é Estevan Martinez, mas desde criança me chamam de Gugui então já utilizo deste novo nome a bastante tempo digamos, muito embora na década de 90 eu tenha pintado centenas de quadros assinados com o primeiro nome.

AP: Para um artista que já ganhou prêmios importantes você é considerado um jovem. Qual a sua idade?

GM:  Sim, eu fui premiado recentemente no Festival Multimídia Contato de São Carlos e no Festival Internacional Art Engine, ambos em São Paulo, onde tive contato com linguagens mais contemporâneas da arte computação, o que ampliou meu repertório para essa nova exposição. Um outro projeto que fiquei muito feliz em realizar foi o “Faz-se Filmes”, em parceria com minha irmã, Violeta Martinez, um exemplo do cinema de inclusão, onde o lema era traduzir histórias comuns para filmes que as pessoas sonharam para si. Enfim, não gosto de falar de idade, prefiro que as pessoas descubram sobre mim assim como sobre minhas obras, mas se você busca essa resposta eu digo: 28 anos.

AP: Se minhas contas não falham você começou bem cedo, cedo mesmo não foi?

GM: Com seis anos eu já estava tão imerso na arte que meus trabalhos já passaram a ser reconhecidos. Meu pai é artista plástico, minha mãe é escritora, e na década de 90 eu morava em Valença, Baixo-Sul da Bahia, e tinha uma parceria com a galeria Maré Alta em Morro de São Paulo. Nossa história acabou virando um filme, enfim, por aí você imagina… O fluxo muito intenso de turistas internacionais me motivava a produzir séries de trabalhos que eu já trazia do meu imaginário para as telas. Chegava a vender trinta telas e esculturas por mês, o que é muito para qualquer artista, sobretudo por que eu cursava a sexta série primária – descontrai.

AP: E o que esse imaginário trazia para os seus trabalhos?

GM: A linha era de seres híbridos, máscaras, um traço particular que segue até hoje e nessa exposição eu aplico à releituras da cultura popular do Recôncavo, mais especificamente as Caretas. Antes de ter contato com as leituras de Duchamp e Beuys, eu tive influências dos artistas baianos que eu conhecia, como Marepe, Juarez Paraíso, Elias Santos e principalmente minha família, a sobretudo meu pai, Horácio Martinez, com quem eu convivi com a arte desde muito cedo.

AP: De onde vem esse contato?

GM: Ainda criança em Valença participava de manifestações como a Zambiapunga e as Caretas e tudo aquilo me influenciava de alguma maneira e eu, de maneira muito ingênua, como um “fazedor de arte”, ia imprimindo isso em desenhos. Essa experiência foi criando em minha essa poética que hoje eu trago em forma de pintura, escultura e projeção, de maneira amadurecida, como um fruto de realizações e relações anteriores, são as “Caretas Contemporâneas”.

AP: Essa contemporaneidade está em alguma corrente artística que você assume?

GM: A minha arte é engajada, assumidamente, a minha corrente é a valorização do lugar onde estou, o Recôncavo. Eu ainda vejo muito pouco de trabalhos com a cultura popular baiana em suas profundas raízes, as Caretas são algo muito próprio nosso, no entanto muito distante do que é a imagem do Carnaval hoje, por exemplo. A tentativa é atrair olhares para essas manifestações através das diversas linguagens possíveis.

AP: Você tem outros planos para além da exposição na galeria Identidade Brasil?

GM: Digamos que eu tenho outros sonhos. Eu queria que os editais, as formas de contemplar a cultura, fossem mais justas com esses mestre populares, são eles que fazem a cultura acima de qualquer empresa ou produtora. Um grande exemplo é Seu Dodô, careteiro de Acupe, em Santo Amaro da Purificação, um trabalho de resgate que vem desde a década de 80 a sede deles não tem nem sequer telhado. Como alguém vai ser agraciado sem a formação para escrever um bom projeto? Essas pessoas não tem que provar nada, quem precisa provar somos nós, que somos jovens. Minha intenção é mostrar essa força do Recôncavo.

Texto e Fotos: Toni Caldas

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